Contos Para A Noite | O Acordeonista

O Acordeonista

Era por volta das nove horas da noite no momento em que eu passava pelo pequeno porto do vilarejo quando começou a chover. O cricrilar dos grilos e o coaxar dos sapos deixavam a atmosfera mais densa e solitária. Eu, desatento que sou, me esqueci que estávamos em temporada de frio, de chuva e de neblina e saí por aí sem um agasalho decente. Vi meu relógio marcar dez horas da noite quando a chuva começou a engrossar e engrossar e… eu não tinha para onde ir.

Para ser sincero, eu não estava com o tino no devido lugar. Naquela noite eu havia saído de casa depois de uma… briga familiar com meu filho, meu pai e minha mulher e… e eu fiz coisas horríveis. Juro que se mais alguém aparecesse em meu caminho pelas ruelas daquele maldito vilarejo depois do que fiz em casa eu não sei o que poderia acontecer. Porém, foi quando eu estava procurando um lugar menos frio pelo porto para me sentar e buscar clareza em minha mente que vi um nevoeiro meio roxo e meio rubro vindo do pântano.

Acompanhei com o olhar seu movimento lastimoso. A neblina veio em direção ao vilarejo, serena e mansa, e logo se misturou aos ares adocicados pela chuva que, neste instante, não estava fraca nem forte. Admito que não me recordo por quanto tempo observei aquela névoa, pois perdi a noção do tempo. Apenas me dei conta de que era meia noite porque o sino da capela do vilarejo badalou lá longe. Coincidentemente, foi neste mesmo instante em que avistei uma silhueta próxima à um dos postes do porto, não muito longe de mim. Parecia alguém. Alguém segurando alguma coisa.

Tentando ainda esquecer a desgraça que de horas atrás, decidi atender a minha curiosidade e fui de encontro com aquilo. Assim que me levantei, ouvi o som de um acordeon sendo tocado sutilmente. Relampejou no horizonte atrás daquela silhueta, fazendo-me perceber que era nitidamente um homem, nem velho e nem novo. Eu não sei dizer bem como era seu rosto, pois este parecia mais um enigma… mas em sua roupagem havia um detalhe que sugava minha atenção: uma gravata borboleta meio rasgada, roxa e muito esquisita. Pra ser justo, ELE todo era esquisito! A começar por seu acordeon que era muito velho, já carcomido pelo tempo, depois havia sua camisa de botões vermelha que estava amassada e ensacada numa calça preta desbotada. Não reparei nos sapatos porque​ a parca luz do ambiente limitava minha visão, mas quando enfim consegui desviar meu olhar de sua gravata e me voltei para seu rosto, recebi subitamente um sorriso largo e disforme que me apavorou. A chuva não dava trégua.

Me olhando fixamente nos olhos sem sequer piscar, o homem tirou sua cartola antes mesmo que eu pudesse notá-la e a jogou no chão, de cabeça para baixo. Juntos, o olhar fixo e o sorriso daquele desgraçado eram quase hipnotizantes, mas pior foi quando quando ele rompeu o silêncio com sua voz cavernosa:

“Meu caro senhor, eu sou O Acordeonista, e com este mágico e antiquíssimo acordeon que carrego comigo posso apresentar-lhe a verdadeira Terra Prometida. Eu toco uma canção, mas em troca, eu quero que você me dê o pertence mais valioso que você carrega. Tocarei uma de minhas melhores, prometo que minha música irá te maravilhar!”

Ele falava e se portava como um irritante personagem de circo. Fiquei tentado a arriscar meu tempo alí, pois qualquer coisa que me distraísse a mente naquela noite era válido. Contudo, não havia nada de valor comigo… eu tinha somente a roupa do couro e um relógio rústico e mal preservado. Saí de minha moradia sem uma moeda de ouro sequer. Em vão, ainda tentei achar algo pelos meus bolsos. Ousei olhar para ele mais uma vez e cogitei falar algo, mas hesitei. O depravado continuava a me encarar, aumentando ainda mais seu sorriso horripilante, como se esperasse por algo. Ele não piscava nunca, nem mesmo com a chuva que caía em seu rosto, que inferno! E antes que eu pudesse reagir àquela visão sinistra, Acordeonista puxou o fole de seu instrumento, tocando algumas notas desarmoniosas e desafinadas muito rapidamente e em alto volume, notas estas que fizeram meus ouvidos dispararem, me deixando tonto.

Foi quando então recordações do ocorrido de horas anteriores em minha casa tomaram meu juízo… todo aquele episódio parecia muito mais intenso, muito mais pecaminoso, muito mais intenso e diabólico em minha mente.

Quando retomei o equilíbrio, eu estava muito assustado, mas não o suficiente para perder a cabeça. Olhei instintivamente para o meu relógio e reparei que, de maneira inexplicável, era ainda exatamente meia noite em ponto, mesmo eu estando ali por um longo momento. O sino da capela badalava incessantemente, corroborando com meu acessório. Ouvi novamente a voz do Acordeonista e, desta vez, sua louca expressão de sorriso largo e olhos penetrantes havia se esvaído.

“Não se preocupe, percebi seu interesse pela minha música, assim como também percebo que está com dificuldade de achar algo que eu possa me interessar… mas você é diferente. Diferente de verdade. Ponha essa moeda brilhante de prata que está no bolso direito de sua calça em minha cartola e eu tocarei a música que lhe falei.”

Sem pensar duas vezes, tirei a moeda do bolso e, com o movimento do meu polegar, a lancei girando no ar até a cartola daquele que usava a gravata-borboleta mais marcante que já vi. Eu não sei como não havia achado aquela moeda alí, mas agora aquilo pouco importava. Eu não sei porque, não sei o que tanto me atraía, mas àquele ponto eu… eu já estava louco, quase ensandecido, para ouvir a música mágica daquele ser tão misterioso.

O Acordeonista olhou a moeda caindo em direção à cartola, arqueando seu pescoço para frente, aumentando em tamanho seu próprio corpo. E assim ficou por uns dois longos segundos, com seu rosto escondido nas sombras. De repente, ele levantou sua cabeça, revelando mais uma vez aquela demoníaca expressão em seu rosto. Ele estalou seus dedos e uivou como um cão, fazendo a chuva se intensificar, os relâmpagos e trovões aumentarem e a névoa roxa e vermelha ficar muito mais espessa, libertando a música profana da suposta “Terra Prometida”.

E eu nunca, nunca, nunca ouvi nada tão grandioso!

Ao término de sua melodia, eu estava simplesmente extasiado. Era simplesmente a coisa mais inexplicavelmente envolvente que já ouvi. Fiquei desesperado para ouvir mais. Antes que eu pedisse, ele estalou o pescoço, gargalhou e disse: “vai ter que pagar se quiser ouvir mais, colega”. Logo antes de enlouquecer por não ter mais nada a oferecer para aquela criatura, olhei bem em seu rosto uma última vez… e apaguei.

Acordei na manhã seguinte largado numa ruela, e o vilarejo todo estava em polvorosa. Todos estavam do lado de fora de suas casas, ignorando o frio e o céu nublado que a chuva havia deixado como vestígio de sua passagem. Um único assunto corria por aquelas bocas: o misterioso e singular homem que apareceu para cada um deles à meia noite.

É claro que estranhei o fenômeno sobrenatural, mas não cheguei a contar a minha experiência para os outros, mas ouvi bem o que falavam. As descrições que davam eram sempre muito semelhantes entre si, assim como eram verossímeis ao que eu mesmo vi: um homem de estatura média, de gravata borboleta roxa e mal vestido, carregando um acordeon velho. Mas a forma como descreviam as partes mais místicas do encontro variava bastante, sendo a maneira como ele se apresentava e a barganha que fazia com sua música as únicas coisas em comum entre os discursos.

Me intrometendo na conversa alheia mais ainda, percebi outro detalhe: na grande maioria dos encontros, O Acordeonista aparentemente não levava nada em troca de sua música, apenas dizia que “o que queria como pagamento pela música encontrou na essência da pessoa”, ou algo parecido. Como esse detalhe não aconteceu comigo, não sei falar mais sobre isso.

Fiquei remoendo as memórias que me atingiram a razão durante o momento inexplicável daquela noite tenebrosa enquanto a euforia no vilarejo continuava no dia seguinte. Cheguei a saber que algumas pessoas estavam começando a desaparecer sem explicação ou rastro. No terceiro dia, o alarde era total, pois poucas pessoas ainda se encontravam no vilarejo. O pânico se tornou um fantasma vívido e não muito silencioso no âmago daqueles que ainda restavam… inclusive no meu. O pior, porém, é que no meu caso em particular, eram as memórias corrosivas que me assombravam. O que eu fiz parecia cada vez mais horroroso.

Ao fim do quarto dia, a lua cheia estava prateada e brilhante no céu. Quando deu meia noite, o sino da capela não badalou, pois não havia mais ninguém para o fazer soar. Meu relógio travou imediatamente com os ponteiros precisamente apontados para o número doze. Dei intermináveis voltas pelo vilarejo sem sentir fome, frio, dor ou cansaço atrás de um único alguém além de mim que ainda habitasse aquele lugar. Sem sucesso, decidi ir ao porto, no exato lugar onde eu estava no começo de tudo isso. E foi quando então me deparei com o horror.

Lá estavam, próximos ao poste em que me encontrei com ele, largados ao léu, sua cartola, sua gravata borboleta e seu acordeon velho encharcados de uma lama viscosa, negra e fétida. Três corpos atirados ao chão queimavam num fogo místico inextinguível. No grande muro do porto, estava escrito com sangue os seguintes dizeres:

“Carrego para o inferno todas as almas que a mim se venderam em troca de introspecções vãs, falsas verdades, promiscuidade e posses, pois estes escolheram sua Terra Prometida. Mas àquele mais pecaminoso está entregue o fardo de colher infinitas almas tocando o instrumento amaldiçoado, jamais podendo se encontrar com sua família no além-vida para implorar pelo perdão por seus crimes sombrios e profanos.”

Aquela mesma névoa havia voltado, mas desta vez, veloz e violenta, como se tivesse desejo de consumir tudo. A lua prateada estava sangrando. Vinda do chão, uma melodia diabolicamente estridente me invadiu, fazendo-me dar compreender que os corpos em chamas azuladas eram da minha família, a qual assassinei a sangue frio com minhas próprias mãos. O Diabo recusou-se em levar minha alma já gangrenada e me castigou para sempre. Aqueles acessórios e aquele acordeon vivo agora eram de minha posse, pois eu os herdei. Sou herdeiro do fogo, da chaga, do mal.

Filho do Inferno, sou O Acordeonista, o encarregado de profanar a criação através daqueles mais imorais e sujos, espalhando a ruindade e escravizando aqueles de espírito quebrado.

L. E. Farias

Arte em destaque por @anarafaelylust

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s